quarta-feira, 19 de agosto de 2009

VERBORRAGIA

Encontrei nas profundezas de meus arquivos um texto chorão/dramático/intenso; que deve ser de um ano atrás ou talvez até tenha menos idade.
Só advirto uma coisa: Cuidado, o conteúdo exposto aqui é altamente introspectivo, de tom psicológico abalado e filosoficamente aprofundado.
Para quem nunca leu Lispector ou Woolf, seria difícil entender cada e qualquer palavra.
Está preparado?

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Uma verborragia sem tamanho há de se iniciar. Deve ser uma espécie de dom esse de rascunhar atendo-me a cada detalhe das palavras e deixando transbordar para o papel o que há em mim; ou uma maldição. Das minhas lamúrias faço o meu drama, enrolo-o numa bela trama e tenho a alma que aflita clama por um pouco da chama, da chama do amor.
Contudo, eu não me preocupo em ferir-me, pois quem escreve utilizando a tinta da lama da angústia, não o faz empenhando-se na cura para seu sofrimento, não surtiria efeito algum; então ele apenas o faz. E desta forma eu o faço, agora.

Logo a princípio, devo dizer que estou errada. Cometo a mais grave das infrações ao envolver-me com o outro, ao ir fundo na ilusão de um amor, ao deixar abertas as portas do meu coração àquele que não o percebe.
Sofreria eu menos se eu me cobrisse com o véu da superficialidade, se eu fosse como as almas vulgares? Aqueles que jamais provarão da intensidade de se apaixonar, aqueles que nunca sentirão nem ao longe o rastro do amor puro e verdadeiro perpassar-lhes, aqueles que não poderão enxergar com nitidez a alma do indivíduo amado.
Não; por mais que eu intentasse no fingimento de ser uma dessas almas frívolas, não atingiria o cume do monte do amor, porque não teria sequer consciência de que há um caminho que leva até o topo; apenas contemplá-lo-ia, do labirinto da ignorância que há nos pés da montanha, totalmente perdida.
O meu erro é ser quem sou; é sentir demais.

E quem compreende a complexidade do coração humano?
Aqui, contido em meu peito, há um infinito de amor para dar; mas o amor de mulher e homem é uma substância fluida, que exige uma dinâmica de oscilação, o movimento de ir e voltar. Então, quando estou prestes a liberar as barreiras que represam o que há guardado em meu interior, e pedir apenas uma parcela ínfima de sentimento genuíno em troca, dou de ombros com uma tranca. Encontro corações lacrados, seja pelo receio de sofrer, seja pelo comodismo de viver sem a emoção constantemente correndo pelas veias, seja pela pura e simples timidez.

Desiludo-me assim. Fico no descontentamento com as frustradas tentativas de amar, que fazem minhas aspirações fenecerem e ganharem um tom acinzentado. O cinza monocromático que reflete a melancolia de ter de manter aqui comigo, o meu desejo de entregar-me, o sonho de ser una ao outro, e a vontade se ter o coração de outro ser pertencente a mim; como quando se instala no rosto da criança a tristeza por prenderem ao solo seus balões que foram feitos para voarem livres pelos céus. Então, surge no pequenino o anseio de soltá-los, tal qual há em mim o anseio de permitir-me viver este amor.

No entanto, uma dúvida me toma por completo: Existe no mundo um único homem que tenha o coração livre para amar, os olhos não-viciados pela maldade, consciência para valorizar o essencial, a mente aberta para a ideia nova, o caráter incorruptível, o corpo limpo da impureza da luxúria, a alma límpida e transparente?

Toda nova empreitada me faz voltar com arranhões e escoriações; com esta não teria sido diferente. Há pouco regressei a mim, e estou contabilizando as baixas. São muitas, mas não inúmeras.
Vejo que me entristeço pela perda; pela saudade daquele a quem dei uma parte de mim, saudade do que nunca houve de fato, e pela falha em amá-lo.

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