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Deitar na cama, no chão, na grama, no sofá, aonde quer que fosse, e simplesmente deixar a imaginação correr solta; libertar a mente, e fazer com que apenas ela, e mais nada, seja o limite. Isso me entretêm como nenhuma outra coisa feita de matéria, seja ela orgânica ou inorgânica. Quando menina pequena, quaisquer brinquedos que tivesse, quaisquer amigos, quaisquer coisas que fossem, perdiam a vez frente a esta minha 'atividade', ou também face a um outro maravilhoso exercício intelectual, complementar a este meu favorito já descrito, e que é a belíssima descoberta!
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Perguntar, questionar, conversar, interrogar, pesquisar, fuçar, ser curiosa, ler tudo que estava à vista -- de bulas de remédio à dicionários -- me deixava extasiada, me fazia ter cada vez mais empenho em aprender, cada vez mais apreço pelo conhecimento. Talvez seja o inebriante frescor do saber novo, recém adquirido, que ficava reverberando na minha cachola, entorpecendo os neurônios, deixando-os com a sensação de querer mais, como um viciado necessita do objeto de seu vício; mas guardadas as devidas proporções, é claro.
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Engraçado é que, um processo intelectual não funciona sem o outro. É preciso adquirir informação, para ter um arquivo gravado no cérebro -- o meu que deve ser composto de mingau a esta altura de tanto que já estoquei (in)utilidade nele -- e assim, ter condições para fazer com que a mente viaje tranquilamente por um Universo potencial de opções para criação de coisas, aparentemente, novas. Não é mesmo fantástica essa engenhoca que fica dentro do crânio?
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E tem mais dos meus dias de infante. Fui -- e continuo sendo em certa medida -- uma daydreamer, uma sonhadora. Aquela que tinha moralidade elevada, que sabia o que era-certo-e-errado, que tinha muito mais 'noção' que os outros da mesma faixa etária; aquela que fazia papel de mini-adulta, que procurava ser o melhor que pudesse ser, que se preocupava com o caráter, com os que estavam à minha volta.
Mesmo assim, e talvez por ser assim, eu planejava. {Era uma criança, que poderia eu fazer além disto?} Então, reservava ao futuro a ação, ficava apenas na montagem de um esquema de como seria quando finalmente 'crescesse' e pudesse enfim, provar - para mim mesma e para quem mais estivesse interessado em demonstrações de auto afirmação - o meu valor; quem era 'eu' neste planetinha peculiar.
O engraçado é que, apesar de toda essa carga de seriedade, eu era feliz. Era contente, tranquila, serena. Não me cobrava de nada. Era a pura essência de mim, toda inteira, toda orgânica, todo meu interior ficava à mostra na Anielle que se via por fora.
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Infeliz ou felizmente, a vida corre. Avançamos na linha do tempo. Vamos aumentando de tamanho, vamos acrescentando mais e mais saberes ao nosso conteúdo, vamos virando gente grande.
Aprendemos como as coisas de fato são e perdemos a singeleza de imaginarmos-as como deveriam ser. Trocamos a visão do mundo através dos óculos cor-de-rosa, por armação sem lentes. Vemos a realidade nua, crua, e ardilosa.
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E eu amarguei. Endureci. Enrijeci meu eu moldável. Fechei-me em minha casquinha de fino cristal, e me escondi dentro. Nunca mais sairia de lá, prometi, jurei de pés juntos. Fixei uma bandeira de -- quase -- completo isolamento, vivendo somente de brisa.
Ninguém mais veria o que há por dentro; eu era -- ou ainda sou um tanto quanto, não sei por certo -- a resignação feita em gente.
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Mas me é mais delicioso perceber que apesar de ser uma tarefa incrivelmente complicada, posso ser quem eu desejar, tendo consciência desta minha ingenuidade, tendo em vista a alma delicada -- e por esta mesma razão, uma alma não-rasa -- que tenho. Posso ser quem fora um dia, uma vez mais. Posso ser uma versão aprimorada do que fui, se conseguir limpar a visão; se puder ver o mundo de um jeito todo novo, de olhos não-viciados pela maldade. Posso ser melhor ainda, se for hábil o suficiente para arrancar do âmago um pouco de ideal, um mínimo de sonho, se me permitir sair do casulo.
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Só quero ter em mim aquilo que Saramago diz necessitarem as cidades de serem: limpas, cultas, livres, modernas e organizadas. (Talvez saudável seria bom de ser também!)
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O que posso mais querer além da tríade verdade-justiça-liberdade?
Sou/seria/serei completa deste modo.
~Vivo de fragmentos de momentos únicos; de retalhos de humanidade sincera; de pedacinhos de ilusão persistente.
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