Havia horas que estava ali no quarto escuro, na densidade da solidão. Completamente arrasada, sem um pensamento sequer me passando pela mente. Fechava os olhos, ou deixava-os abertos; não fazia diferença, tudo era breu. Manter-se acordada ou embarcar em um sono profundo era questão de escolha do observador externo, pois, naquele momento para mim era exatamente a mesma coisa.
A vida perdera complemente o sentido. As referências de sentimento, as estruturas de afeto, aquilo em que me fizeram acreditar na existência - o amor incondicional entre dois seres - desvaneceu-se como a última vibração na água do lago causada pela pedra lançada à revelia. Tão efêmero quase como se nunca houvesse estado ali. Meu amigo, meu querido, meu bem quisto, meu amado, simplesmente se foi. Aquele que cultivou em mim os mais belos e puros sonhos de paixão, carinho e ternura, cansou-se de meu gênio; saiu pelo mundo afora a procura do que, talvez, não encontrasse em mim. Ou ainda, fugiu para não ter de enfrentar aquilo com que se deparou; correu para que não tivesse de lidar com o que havíamos criado, com o que era agora, verdadeiramente nosso.
Não obstante, levou consigo o que eu tinha lhe dado de melhor, minha confiança. Roubou-a descaradamente e fê-la em mil pedaços, rindo-se sarcasticamente da minha ingenuidade, da inocência de quem se entrega ao outro, de quem confia até o último segredo, de quem dá de si até a última gota de sangue, de quem deposita até o último suplício de felicidade no colo do indivíduo amado.
Sentei-me na cama, logo naquele instante no qual todas as cenas terríveis vividas na última semana piscavam como flashes em minha cabeça. O corpo cambaleava e eu hesitava em pôr-me de pé. Alcançando a bacia que estava logo abaixo de meu corpo cadavérico, semi-vivo, semi-morto, agarrei-a com força e vomitei, coloquei para fora o que não comera, numa tentaviva desesperada de expurgar a morte de mim. Tudo em vão; ela já estava grudada à minha pele.
Mas me perguntava silenciosa e pausadamente: será que pode haver traição maior que a mentira? A mentira não-destilada, simples e nítida? Aquela acompanhada da sádica hipocrisia? A mentira contada sem o menor escrúpulo, que além de esconder a verdade, destrói o que encontra pela frente? Desde sempre, ela é o maior pecado e o pior jogo.
Mais dúvidas me tiravam o pouquíssimo sossego que ainda poderia ter restado em mim. Teria ele me amado algum dia? Teria sido ele capaz de algum sentimento genuínio? Teria ele tencionado planejar uma vida a dois? Ou a três, como haveria de ser? Não, um crápula como aquele não é digno de sentir, qualquer coisa que seja. Nem as emoções do pior gênero ele devia se prestar a vivenciar. E não, o homem não pensara em absolutamente nada além de seu próprio conforto indigente. A indiferença é seu estado permanente; ele é a personificação da frieza completa.
Ah! E eu adoraria tê-lo odiado; mas nem para isso tinha forças. Era só o pó de mim; a desilusão me transformou numa pintura desbotada de quem fui. O máximo que consegui foi detestá-lo; o que não era significante o suficiente para ser aceito como reação de uma mulher que fora mal tratada, desrespeitada, humilhada e correra risco de vida, ou melhor, que esteve quase morta.
Agora, em minha deplorável esqualidez, eu tilintava por completo. Tremia da extremidade do dedão do pé até o último fio de meus longos cabelos dourados; talvez, se alguém ali estivesse, ouviria até os ossos, a bater uns nos outros. A visão estava turva, embaçada, confusa; e o gelado externo que me arrepiou os pelos todos, me empalideceu por dentro.
Estava nas sombras, sombria, e sóbria. Podia ver com clareza já com o turbilhão passado. Eu adiara o inevitável tentando convencê-lo do que ele não queria ver; os argumentos, os gritos, os apelos, tudo em vão. O abandono era certo. Ele não mais me queria. Nem desejava ter o filho. Havia de se ausentar da paternidade e do compromisso sem titubear. Contudo, não pude entender antes o porquê. Uma razão que ficara para mim alva como o céus, ainda naqueles momentos fatídicos. A verdade era nitidamente cruel.
Eu vivera momentos ilusórios.
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