- Já vou mãe, já vou! -- gritou Clarice descendo freneticamente as escadas.
Eu preparava seu lanche de queijo, e ao colocá-lo milimetricamente encaixado na lancheira, fui ordenando à minha pequena desengonçadinha que corresse até a lavanderia, calçasse os sapatos, vestisse o casaco e voltasse na cozinha, antes que se atrasasse para a escola.
A um só tempo, tão mínima, tão frágil, tão quase imperceptível e tão doce, tão bela, tão viva; assim era Clarice. Uma miniatura de fortaleza se projetava nos olhos cor de mel daquele ser.
A graciosidade em pessoa, ou melhor, em forma de menininha. Sabia exatamente quando estavam escondendo-lhe a verdade, e já apertava o nariz quando mentiam a ela.
Apenas sete anos, e podia abraçar o mundo com aquele sorriso, aquela esperteza e aquela vontade de ser humana.
Era seu primeiro dia no mundo exterior e eu temia em deixá-la sozinha; a vida toda ela esteve ao meu lado, em meus braços, sob minha proteção e meus cuidados. O coração de mãe, que titubeia e chora ao ver aquilo que lhe é mais caro escapando um pouco mais de seu raio de amor, sofria e me fazia querer embalar a garotinha no colo, até que ela dormisse tranquila e profundamente. Mas é a cabeça de mãe, que sabe que é ao empurrar seu passarinho penhasco abaixo que ele aprenderá a voar, que me fez descer do transporte público, com toda a convicção, e largar Clarice com os olhos cheios de lágrimas a segurar as mãos da professora.
Mal eu sabia que jamais voltaria a sentir o perfume de seus cabelos, mal eu sabia que a crueldade da separação eterna nos esperava naquela manhã.
O seu modo de cantarolar quando estava contente e a maciez de sua voz ao fazê-lo são o meu conforto neste momento. Escrevo aqui, neste pequeno pedaço de papel, aquilo que minha mente é capaz de transfomar em palavra. O corpo, já não é mais recuperável; a equipe de resgate, que aqui chegou há meia hora, talvez mais, afirmou a impossibilidade de salvar-me.
É estranho o modo como vemos as coisas nestes segundos que antecedem a morte; este lampejo de consciência logo antes de partir pela última vez. Não há de que fugir, não há do que se poupar, tudo está à mostra. Da carne à alma.
Eu me pergunto se isto poderia ter acontecido; enquanto eu andava firmemente na calçada, um caminhão verde-musgo, cujo motorista dormira e perdera o controle da direção, atracou-se contra o meu corpo, e o prendeu numa árvore. Um mero acidente cotidiano.
Porém, como ficará a pequena? Ela terá forças para continuar bravamente a ser aquilo que seu interior, que sua essência ditar? Ou o ambiente irá sugar toda a sua bondade, transformando-a num ser frio? E as últimas palavras que ouvi da criatura amável a quem dediquei dias e noites e anos de minha vida, foram: já vou. Agora, quem responde com estou indo, até nunca princesinha, sou eu, sua mãe. Terrivelmente, não posso prometer que nos encontraremos uma vez mais, me desculpe; a única coisa que poderia afastar Clarice de mim, agiu, e foi implacável.
sábado, 2 de janeiro de 2010
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