quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O PODER DO CHURRASCO

É impressionante o que um latão cortado ao meio, um saco de carvão e fósforo não fazem pelas pessoas. Hoje eu pude testemunhar -- e vivenciar -- o poder do sagrado churrasco brasileiro.
Uma sinergia ocorre em torno do ritual da comilança; todos desejam estar ali, compartilhando o que há de mais essencial ao ser humano, a nutrição.
Então, foi hoje que, afinal, estivemos todos juntos. Compatilhando algo; tínhamos algo em comum, finalmente. Após anos de tentativas frustradas, turmas sem nenhuma identidade, caras feias aos montes, professores desesperançosos, discussões ferrenhas, e as mesmas atitudes e personalidades fortes (demais) que sempre nos levavam ao nada social, a tal da "união" deslanchou. Aconteceu como mágica!

A preparação do churrasco gerou pequenos conflitos, porém nada que afetasse o objetivo primeiro. Queríamos comer, por isso tudo precisava dar certo. Se alguém come a mais do que deve, os outros ficam chupando o dedo. E se alguém paga a menos do que deve, os outros ficam no prejuízo. Por esta razão, cada um vigia o outro. (Isto me recorda crianças que denunciavam seus pais em épocas de governos ditatoriais, pois, era mais correto que eles fossem presos ou até mortos se não estivessem em acordo com a sociedade e as regras sociais vigentes; o que associaria com a socionomia de Piaget; mas voltemos..)
Estávamos todos envolvidos, participando, palpitando, gritando -- o inconveniente é inevitável -- mas, estávamos ali.
Há um ponto curioso a ser ressaltado: aqueles que criam o balão da discórdia, só acabaram se juntando ao esquema depois de quase tudo estar decidido. Não houve espaço para chiliques de marca maior, felizmente. E creio que foi isto a propiciar o resultado positivo do final do almoço.

Comemos carne. Bovina, de frango, suína. Alguns serviram-se de farofa e vinagrete; mas não é este o ponto essencial; a comida era o instrumento de junção, nada mais.
O que me iluminou a existência, verdadeiramente, foi ver a integração de seres que aparentemente só fazem mostrar seus sentimentos de desprezo uns pelos outros. Eu me alegrei intensamente; ainda mais por ser parte daquilo.

Claro que feitos miraculosos como este não durariam pela eternidade; já na aula seguinte alguém faz questão de se estranhar com o primeiro que lhe deu uma resposta que desagrade ao cidadão.
É certo que todos têm o direito de se portar como queiram, mas a intransigência necessita de limite.
A ternura com que as pessoas se tratavam na hora do tal churrasco poderia ser estendida aos momentos que não houvesse nada além de nós envolvido.

É; cada dia é um exercício de humanidade.

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