Delicie-se com seu frescor!}

Este último dia doze de junho foi o dia mais esperado do ano pelos casais de pombinhos apaixonados: o dia dos namorados; quando o aflorescimento das paixões é recomendado de ser publicamente demonstrado, quando todos os amantes estão permitidos a amar livremente.
E por conta de tal ocasião, houve uma deixa no dia anterior, para que aquele familiar, o chato-importunador-de-plantão, comparável na inconveniência à tia-apertadora-de-bochecha, me viesse fazer a fatídica pergunta; aquela que todos os presentes no almoço estavam tremelicando por dentro de curiosidade para saber a resposta, mas que não teriam sequer um pouco de audácia para fazê-la. Cá está a cruel interrogação: 'E então, não vai sair com o seu namorado amanhã?'
Minha fértil mente que espanta suas teias ao menor ruído de novidade, ao surgir do acontecimento mais banal, mais vulgar, pôs-se a pensar. Depois de vários anos de respostas vazias, secas, inertes e sem-graça como 'não, não vou ver ninguém' e 'não há namorado algum' consecutivas, e estando completamente entediada destas, resolvi basear-me em um texto de Drummond para me deliciar com a dúvida da incerteza que deixei pairando no ar; repliquei-o imediatamente com um singelo e nada confortável 'talvez'.
Com isto, consegui fazer com que uns alguéns ficassem com a cara coberta de enigma; tentando interpretar aquilo que eu acabara de dizer. Se entenderam-me, não sei; não era esta mesmo a intenção.
Gostei foi da travessura de gente pequena; brincadeira boba e inofensiva.E para mim, entre eu e eu, aqui comigo, nenhuma resposta poderia ser mais precisa. Afinal, vivo o lúdico do enlou-crescer, deixando exposta minha humanidade latente; danço com o sonho e corro atrás da vida, como faz a menina que persegue as folhas a voar no vento lufante. Para tornar real, firme e concreto o antigo desejo, falta-me apenas o bem-querer. Quem sabe então, a permear meu destino presente ou longínquo, não esteja à minha espera aquele que poderá valsar a vida no mesmo ritmo que eu?
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O texto que me inspirou a fazer tal façanha, faz-se aqui presente:
"Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade.
Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar. Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical na Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos; ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar.Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. Enlou-cresça."
Obra do tal do Carlos Drummond.
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