Como é que pude estar tão distante das letras nestes últimos tempos?
Nada escrevia. Nada lia. Nada pensava.
Não conseguia mais fazê-los fluir, queridos vocábulos, nem do habitual jeito tosco, nem de jeito algum. Morriam estancados na superfície da alma. Estavam guerreando lá dentro.
Desde sempre, eu concebera que a única falta que poderia valer com as palavras é falta de papel; não esta tediosa falta de vontade, não está repuganante falta de ideias. Isso seria a tragédia pura para aquele que rabisca e escrevinha e escreve!
E esta doença foi logo me atacar..
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Também é bem verdade que estive no acalento dos números.
E dos intermináveis exercícios requeridos para o vestibular (eca!).
Eu me deleito nas ciências exatas, sim, mas a felicidade proporcionada pela escrita é incomparável. O êxtase profundo encontra-se em revelar a natureza, a natureza humana através do ato de escrever.
Ah! Que saudade eu estava de me derramar inteira aqui, ali e acolá.
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Estou novamente aqui.
Que poderia ser mais feliz?
Esta é a vida que quero.
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Para provar meu estado de espírito lúcido, trago Clarice:
Quero escrever o borrão vermelho de sangue
Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.
(*)
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
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